Criar um personagem imaginário que tranquiliza
E se um pequeno guardião velasse o quarto durante a noite? Um personagem inventado só para o seu filho, com um nome, uma missão, um lugar na prateleira. Para muitas famílias, é uma referência suave que ajuda a vencer a etapa da hora de dormir. Aqui vai como criá-lo juntos, e como mantê-lo no devido lugar: um companheiro, não um substituto do pai ou da mãe.
Por que um guardião imaginário tranquiliza à noite
Nessa idade, o imaginário é bem real para a criança. Um personagem que "vela" enquanto ela dorme lhe dá algo a que se agarrar quando a luz se apaga e o quarto fica enorme. Não é enganar a criança: é oferecer a ela uma imagem tranquilizadora, uma presença amiga que torna a noite menos vazia.
Essa ideia se apoia num mecanismo que os pediatras conhecem bem: o objeto transicional, o famoso bichinho de pelúcia. Como explicam os especialistas em saúde infantil, o bichinho de pelúcia é uma fonte de conforto e segurança para a criança, porque faz a ponte entre o conhecido e o desconhecido. Um personagem-guardião cumpre um papel parecido: faz a ponte entre o momento em que você está ali e a noite em que a criança está sozinha na cama.
Uma observação importante: nem todas as crianças adotam um objeto de conforto, cerca de uma em cada duas o faz, e está tudo bem assim. Se o seu filho não embarcar na ideia de um guardião, não insista. E, de todo jeito, esse companheiro vem somar-se à sua presença: ele não a substitui.
Inventá-lo junto, não no lugar dele
O personagem tranquiliza ainda mais quando vem da criança. Em vez de chegar com um herói pronto, deixe que ela conduza a criação: é o guardião dela, as regras dela. Você está ali para fazer perguntas e ajudá-la a dar forma à ideia.
- Parta do que ela gosta. Um animal, uma estrela, uma criaturinha doce: deixe que ela escolha a forma.
- Dê um nome a ele. Costuma ser o momento preferido das crianças, e o nome deixa o personagem vivo.
- Defina a missão. Velar o quarto, guardar os sonhos, espantar o escuro dos cantos: uma única missão clara basta.
- Encontre um lugar para ele. Na prateleira, no pé da cama, no parapeito da janela: um lugar de onde ele "vigia".
- Invente a rotininha dele. Um boa noite, uma piscadela, uma frase repetida toda noite que o ativa para a noite.
Essa rotininha da noite com o guardião se liga a um princípio tranquilizador para a criança. Os especialistas em saúde infantil lembram que, ao repetir os mesmos gestos toda noite, você cria um clima tranquilo e de confiança. Dizer boa noite ao guardião, sempre da mesma forma, vira um desses gestos que demarcam o fim do dia.
As histórias Tilibou
Histórias de dormir povoadas de personagenzinhos doces, sem telas. Para nutrir o imaginário do seu filho e inspirar, quem sabe, o guardião que vai velar a noite dele.
Ouvir um episódioDar vida a ele ao longo das noites
Um guardião imaginário vive, sobretudo, das pequenas histórias que se tecem em torno dele. Não precisa de uma grande narrativa: algumas palavras, à noite, bastam para fazê-lo existir. De manhã, você pode contar que ele velou bem, que viu passar um sonho engraçado. Esses acenos mantêm a presença amiga sem exagerar.
O personagem também pode virar um aliado prático. É ele que "gosta quando a gente arruma antes de dormir", ele que "prefere quando a gente fala bem baixo à noite". Sem ralhar, a gente se apoia no guardião para deixar a rotina mais fluida. A criança coopera com mais boa vontade quando é o amigo imaginário dela que sugere.
E se uma história em áudio contar à noite, seu filho pode imaginar que o guardião escuta junto, aninhado no travesseiro. A voz que conta age com suavidade: os especialistas em saúde infantil notam que a musicalidade da língua já age, mesmo quando a criança não capta tudo. O guardião, a história e a voz formam então um trio tranquilo que escolta rumo ao sono.
Manter o personagem no devido lugar
Um guardião imaginário é um belo apoio, desde que não lhe peçam carregar mais do que ele pode. Ele acompanha, ele tranquiliza, mas não substitui nem a sua presença nem o seu carinho da noite. Os especialistas em saúde infantil lembram isso a respeito do bichinho de pelúcia, e vale aqui também: esses objetos de conforto vêm somar ao pai ou à mãe, nunca no lugar deles.
Fique atento também ao tom. O guardião deve fazer bem, não servir para assustar ("se você não dormir, ele vai ficar triste"). A gente fica do lado do conforto e da brincadeira. Se ele virar fonte de angústia em vez de acalmar, é melhor deixá-lo de lado por um tempo. E se os medos noturnos do seu filho são fortes ou duradouros, converse com seu médico ou pediatra: um personagem imaginário é uma doçura, não uma resposta às preocupações que se instalam.
As perguntas que você se faz
Com que idade uma criança pode ter um personagem imaginário?
Muitas vezes a partir dos 3 anos, quando o imaginário ganha força, mas isso varia bastante de uma criança para outra. Algumas adotam um companheiro inventado com entusiasmo, outras de jeito nenhum. Os especialistas em saúde infantil lembram que cerca de uma criança em cada duas adota um objeto de conforto: se ela não embarcar, não é problema.
Isso substitui o bichinho de pelúcia ou a minha presença?
Não. Um guardião imaginário vem somar, nunca no lugar. Os especialistas em saúde infantil ressaltam que os objetos de conforto acompanham a criança mas não substituem o pai ou a mãe. Seu carinho, sua voz e sua presença na hora de dormir continuam sendo o essencial; o personagem é um apoiozinho a mais.
Meu filho tem medo à noite: é uma boa ideia?
Um personagem acolhedor pode ajudar algumas crianças a se sentirem acompanhadas, desde que fique do lado do conforto e nunca da ameaça. Mas não é um remédio. Se os medos noturnos são fortes, frequentes ou duradouros, converse com seu médico ou pediatra.