Devolver a confiança antes de um grande dia
A volta às aulas, uma apresentação, a primeira noite na casa dos avós: na véspera de um grande dia, seu filho costuma ficar com a cabeça cheia de "e se". Você não pode fazer o evento desaparecer, mas pode torná-lo menos desconhecido. Antecipar o que vai acontecer, dar nome ao que ele sente e oferecer uma história-espelho na noite anterior: três gestos simples que transformam o desconhecido em algo que dá para domar.
Por que um grande dia dá tanto medo?
Porque a novidade, sozinha, já basta para deixar o corpo em alerta. Especialistas em desenvolvimento infantil descrevem quatro ingredientes que disparam o estresse na criança: falta de controle, imprevisibilidade, novidade ou ego ameaçado. Um grande dia costuma marcar todos eles de uma vez. A criança não sabe como vai ser (imprevisível), não decide nada (pouco controle), nunca viveu aquilo (novo) e teme não estar à altura (ego).
Boa notícia: esse estresse não é um problema em si. Vale lembrar que o estresse, por si só, não é nocivo. Ele é até essencial ao nosso desenvolvimento. O seu papel, portanto, não é alisar tudo para que ele não sinta nada, mas reduzir o que é inútil e acompanhá-lo no resto. E a mais poderosa das alavancas é reduzir o desconhecido.
Antecipar, o mais belo presente
Contar o dia com antecedência é dar a ele um mapa. Sobre a imprevisibilidade e a novidade, especialistas em desenvolvimento infantil aconselham de forma bem concreta: avise com antecedência os acontecimentos ou mudanças que vão ocorrer em breve, seja um banho daqui a 5 minutos ou uma viagem de carro. Isso ajuda a criança a prever melhor o que está por vir. Para um grande dia, isso significa passar o filme em voz alta: "Amanhã a gente toma café da manhã, calça o seu sapato, caminha até a escola, a professora te recebe e à noite eu venho te buscar."
O conselho vai mais longe para as situações realmente novas: para uma criança que vai ficar com alguém, sugere-se falar com antecedência sobre as etapas da rotina e até apresentar a pessoa que vai cuidar dela antes do dia combinado. A lógica vale para tudo: visitar o teatro da apresentação, olhar uma foto da escola nova, dar um oi para a avó na casa de quem ele vai dormir. Cada detalhe conhecido de antemão é um "e se" a menos.
Dar nome ao frio na barriga
Antes de tranquilizar, a gente acolhe. Há um caminho simples para ajudar a criança diante de uma emoção forte: reconheça que seu filho está vivendo uma emoção; diga a ele que a emoção dele é normal, sem banalizar a reação ("É verdade que isso pode dar medo"); ajude-o a dar nome à emoção que está sentindo. Dizer "vejo que você está um pouco preocupado com amanhã, é normal" costuma fazer mais bem do que um "que nada, fica tranquilo, vai dar tudo certo" que varre tudo para baixo do tapete.
Uma vez a emoção nomeada, dá para lembrar o que depende dele. Pode-se dizer que ele não controla a situação, mas sim a forma como reage a ela. Não para responsabilizá-lo, mas para devolver a ele um pequeno poder: ele não escolhe o grande dia, mas pode respirar fundo, apertar o bichinho de pelúcia ou pensar em você. Já é muita coisa.
Uma história para a véspera de um grande dia
Na noite anterior, uma história suave em que um pequeno herói enfrenta a sua primeira vez e se sai bem. Para ouvir aconchegados, sem telas, e adormecer com a cabeça um pouco mais leve.
Ouvir um episódioA história-espelho, o desvio que tranquiliza
Às vezes, falar de si diretamente é frontal demais. Mas um personagem que vive a mesma coisa, esse a gente ousa olhar. Na véspera, escolher uma história em que um pequeno herói vive a primeira volta às aulas, sobe ao palco ou dorme fora pela primeira vez é oferecer ao seu filho um espelho suave. Ele se reconhece sem ter que dizer, e vê o personagem se sair bem. A mensagem chega de modo indireto: "Dá para ter medo e mesmo assim conseguir."
Encaixar esse momento na rotina da noite tem outra vantagem: fecha o dia na calma, em vez de na angústia. A última imagem antes de dormir não é o grande desconhecido de amanhã, mas um herói tranquilizador que atravessou a prova. É exatamente esse o papel de uma boa história de ninar: transformar uma preocupação em algo domado.
E você, seja um ponto de ancoragem
As crianças captam a nossa tensão como esponjas. Convém ter consciência do seu estresse como mãe ou pai para atenuar os efeitos sobre a criança. De fato, se deixar seu filho com alguém te estressa, é possível que ele perceba isso. Antes de um grande dia, a sua própria serenidade (mesmo que um pouco encenada) é contagiosa, no bom sentido.
Encorajar sem empurrar, também. Vale a pena incentivar a criança a enfrentar situações novas ou difíceis, mas com um cuidado importante: acompanhe-a para que ela não se sinta sobrecarregada. A diferença é preciosa. A gente não minimiza o evento, nem o dramatiza. A gente fica ao lado, como uma referência fixa: aconteça o que acontecer amanhã, você está lá.
Alguns gestos para a véspera
Para encarar um grande dia com um pouco mais de leveza:
- Conte o roteiro do dia com antecedência, etapa por etapa.
- Torne o desconhecido familiar: uma visita, uma foto, um encontro antes do grande dia.
- Acolha a emoção antes de tranquilizar: "é normal ter um pouco de medo".
- Mantenha a rotina da noite estável, é uma referência que acalma.
- Na noite anterior, uma história-espelho de um herói que enfrenta a sua primeira vez.
Uma última palavra: devolver a confiança não é prometer que tudo será perfeito. É dizer, baixinho, "eu sei que é grande, e acredito que você consegue". O resto, seu filho vai descobrir por conta própria, um grande dia depois do outro.
As perguntas que você se faz
Como tranquilizar meu filho antes de um evento que o preocupa?
A alavanca mais eficaz é reduzir o desconhecido. Especialistas em desenvolvimento infantil aconselham anunciar com antecedência os acontecimentos e as mudanças para ajudar a criança a prever melhor o que está por vir. Descreva o roteiro do dia, torne familiar o que for possível e acolha a emoção dela dizendo que é normal, antes de tranquilizá-la.
É melhor falar muito sobre o assunto ou evitá-lo para não angustiar?
Falar ajuda, desde que se mantenha concreto e calmo. Nomear o que vai acontecer tira a imprevisibilidade, um dos gatilhos do estresse. A ideia não é ficar remoendo, mas responder às perguntas e percorrer as etapas uma vez, com tranquilidade, em vez de fingir que o grande dia não existe.
Uma história de ninar pode mesmo ajudar na véspera?
Ela pode oferecer um precioso desvio. Uma história em que um personagem vive a mesma situação permite à criança se reconhecer sem ter que falar de si, e ver o herói se sair bem. Encaixada numa rotina de dormir estável, ela fecha o dia na calma. Isso não substitui a sua presença, mas acompanha lindamente o momento.